Charles Bukowski era um poeta super apaixonado por gatos. O escritor teve diversos amigos felinos e durante sua vida, e escreveu dezenas de poemas falando sobre sua profunda admiração por esses animaizinhos . Um dos poemas mais famosos de Bukowski se chama "meus gatos", encontrado no livro "The Pleasures of the Damned" (2007), ainda sem tradução para o português. Esse livro é um livro póstumo, com um compilado de poemas nunca publicados de Charles Bukowski.
Bukowski, é conhecido por sua prosa visceral e descompromissada, mas nesse poema ele suaviza sua escrita ao descrever seus gatos com uma ternura inesperada. Ele retrata seus companheiros felinos como confidentes silenciosos que compartilham sua solidão e o acompanham nos momentos de reflexão e contemplação. O poema captura a dualidade da vida de Bukowski: a brutalidade e a ternura, a solidão e a companhia, oferecendo um vislumbre íntimo da sensibilidade por trás da persona endurecida do poeta.
Então, veja a seguir a versão traduzida e a versão original do poema "meus gatos"
Meus gatosEu sei. Eu sei.Eles são limitados, têm distintasnecessidades e preocupações.Mas eu os observo e aprendo com eles.Eu aprecio o pouco que sabem,que é tanto.Eles rosnam mas jamaisse inquietam,perambulam com uma surpreendente dignidade.Eles dormem com uma direta simplicidade queos humanos não são capazes de entender.Seus olhos são maisbelos que os nossos olhos.E eles podem dormir 20 horaspor diasemhesitação ouremorso.Quando me sintodesalentadotudo o que tenho a fazeré contemplar os meus gatose assimressurge-me a coragem.Eu estudo essascriaturas.Os gatos são os meusmestres. | My CatsI know. I know.they are limited, have differentneeds and concerns.but I watch and learn from them.I like the little they know,which is so much.they complain but neverworry,they walk with a surprising dignity.they sleep with a direct simplicity thathumans just can’t understand.their eyes are morebeautiful than our eyes.and they can sleep 20 hoursa daywithouthesitation orremorse.when I am feelinglowall I have to do iswatch my catsand mycourage returns.I study thesecreatures.they are myteachers. |
Como já mencionamos, Bukowski era tão admirador de seus gatos, que escreveu diversos poemas sobre eles. Assim, em 2017 foi publicado o livro póstumo "sobre gatos" um compilado de poemas nunca antes publicados, nos quais o autor fala sobre sua admiração e afeição por esses felinos.
Bukowski é conhecido por suas palavras implacáveis, cruas, pessimistas, apaixonadas e melancólicas. O autor levou uma vida Bohemia, era um mulherengo bêbado, que passou a maior parte de seus dias nos becos dos Estados Unidos. Sua poesia refletia seu estilo de vida, o que lhe rendeu o apelido de "velho safado". Entretanto, na velhice Bukowski se acomodou e passou a levar uma vida tranquila nos subúrbios e conheceu o afeto dos felinos. Howard Sounes, jornalista que escreveu a biografia de Bukowski afirmou "ele se tornou sentimental em relação aos gatos na velhice".
Em entrevista a jornalistas Bukowski declarou "Ter um monte de gatos por perto é bom. Se você está se sentindo mal, basta olhar para os gatos, você vai se sentir melhor, porque eles sabem que tudo é exatamente como é. Não há nada para ficar animado. Eles simplesmente sabem. Eles são salvadores. Quanto mais gatos você tiver, mais tempo você viverá. Se você tiver cem gatos, viverá 10 vezes mais do que se tiver 10. Algum dia isso será descoberto e as pessoas terão mil gatos e viverão para sempre. É realmente ridículo.”
Em declaração ao jornal The guardian a Editora Canongate, responsável pela publicação original do livro "sobre gatos" afirmou "Nós o associamos a um estilo de vida rock’n’roll justo, estilo bohêmio e perigoso. Mas há uma gentileza em sua escrita e um amor pelos animais de estimação, que estamos trazendo aqui".
Assim, basicamente, no livro "sobre gatos" somos apresentados a um Bukowski mais sentimental e e gentil, que encontrou na velhice uma conexão profunda de amizade com os felinos.
Livro com uma coletânea de textos inéditos sobre gatos, esses animais misteriosos que tocaram a alma alquebrada do Velho Safado
O poema "a história de um filha da puta durão" é mais um comovente poma de Bukowski. Narra a história de uma gato abandonado e sofrido, que foi encontrado e adotado pelo autor, que acabou desenvolvendo proximidade e conexão com o bichano. Assim, veja o poema na integra, na versão traduzida e original:
uma noite ele apareceu na porta molhado magro espancado e aterrorizadoum gato branco vesgo e sem rabopus ele pra dentro e o alimentei e ele ficoucresceu até pegar confiança em mim até que um amigoentrando na garagem passou com o carro por cima delelevei o que sobrou para o veterinário que disse, “sem muita esperança… dê essas pílulas para ele… sua colunaestá esmagada, mas já foi esmagada antes e de alguma maneira emendou, se ele viver nunca mais andará, vejaessas radiografias, ele foi baleado, olhe aqui, as balasainda estão lá… e mais, ele já teve um rabo um dia, alguém o cortou fora…”levei o gato de volta, era um verão bem quente, um dos mais quentes das últimas décadas, pus ele no piso dobanheiro, dei água e pílulas para ele, ele não comia, elenão tocava na água, mergulhei meu dedo nelae molhei sua boca e falei com ele, eu não saídali, investi um bom tempo no banheiro e conversava comele e tocava nele com cuidado ao que ele me olhavacom aqueles olhos azul-claros vesgos e conforme os diaspassavam ele fez seu primeiro movimentose arrastou com as patas dianteiras(as traseiras não funcionavam)ele conseguiu chegar à caixa de areiase arrastou pra dentro,foi como se o clarim de uma possível vitóriasoprasse naquele banheiro e pela cidade afora, eume identifiquei com aquele gato – eu me dei mal, não tãomal assim mas mal o bastante…uma manhã ele se levantou, ficou de pé, caiu pra trás eapenas olhou pra mim.“você consegue,” eu disse pra ele.ele continuou tentando, se levantando e caindo, finalmente deu alguns passos, ele parecia um bêbado, aspatas traseiras não queriam funcionar mesmo e ele caiu de novo, descansou,aí se levantou.o resto você sabe: hoje ele está melhor do que nunca, vesgo, quase sem dente, mas o encanto está de volta, e aquele olhar nunca abandonou seus olhos…e hoje às vezes sou entrevistado, eles querem saber sobre a vida e a literatura e eu fico bêbado e levanto meu gato vesgo,baleado, atropelado, de rabo arrancado e falo, “olha, olhaisso!”mas eles não entendem, eles dizem algo do tipo, “vocêdisse que foi influenciado por Céline?”“não,” eu levanto o gato, “pelo que acontece, porcoisas como essa, por isso, por isso!”eu chacoalho o gato, levanto ele soba luz esfumaçada e bêbada, ele está tranquilo ele sabe…é aí que as entrevistas acabamembora eu fique com orgulho às vezes quando vejo as fotosdepois e lá estou eu e lá está o gato e nós somos fotografados juntos. Ele também sabe que é besteira, mas isso de alguma maneira tudo ajuda.
he came to the door one night wet thin beaten andterrorizeda white cross-eyed tailless catI took him in and fed him and he stayedgrew to trust me until a friend drove up the drivewayand ran him overI took what was left to a vet who said,"not muchchance…give him these pills…his backboneis crushed, but is was crushed before and somehowmended, if he lives he'll never walk, look atthese x-rays, he's been shot, look here, the pelletsare still there…also, he once had a tail, somebodycut it off…"I took the cat back, it was a hot summer, one of thehottest in decades, I put him on the bathroomfloor, gave him water and pills, he wouldn't eat, hewouldn't touch the water, I dipped my finger into itand wet his mouth and I talked to him, I didn't go any-where, I put in a lot of bathroom time and talked tohim and gently touched him and he looked back atme with those pale blue crossed eyes and as the days went by he made his first movedragging himself forward by his front legs(the rear ones wouldn't work)he made it to the litter boxcrawled over and in,it was like the trumpet of possible victoryblowing in that bathroom and into the city, Irelated to that cat-I'd had it bad, not thatbad but bad enough...one morning he got up, stood up, fell back down andjust looked at me."you can make it," I said to him.he kept trying, getting up falling down, finallyhe walked a few steps, he was like a drunk, therear legs just didn't want to do it and he fell again, rested,then got up.you know the rest: now he's better than ever, cross-eyedalmost toothless, but the grace is back, and that look inhis eyes never left…and now sometimes I'm interviewed, they want to hear aboutlife and literature and I get drunk and hold up my cross-eyed,shot, runover de-tailed cat and I say,"look, lookat this!"but they don't understand, they say something like,"yousay you've been influenced by Celine?""no," I hold the cat up,"by what happens, bythings like this, by this, by this!"I shake the cat, hold him up inthe smoky and drunken light, he's relaxed he knows…it's then that the interviews endalthough I am proud sometimes when I see the pictureslater and there I am and there is the cat and we are photo-graphed together.he too knows it's bullshit but that somehow it all helps.
Charles Bukowski foi um escritor e poeta americano conhecido por sua escrita crua, direta e frequentemente autobiográfica. Ele nasceu em 1920 na Alemanha e emigrou para os Estados Unidos quando criança. Bukowski ganhou reconhecimento principalmente a partir da década de 1960 com seus contos e poemas que retratavam a vida dos marginalizados, alcoólatras, prostitutas e pessoas comuns enfrentando a dureza da vida urbana. Sua obra reflete uma visão desencantada e, ao mesmo tempo, humorística da existência, explorando temas como amor, sexo, trabalho mundano e vícios. Entre suas obras mais conhecidas estão "Post Office" (1971), "Factotum" (1975), "Women" (1978) e várias coleções de poemas como "Love is a Dog From Hell" (1977) e "The Last Night of the Earth Poems" (1992). Bukowski faleceu em 1994, deixando um legado literário marcante que influenciou várias gerações de leitores e escritores.
Espero que você tenha gostado dos poemas "meus gatos" e "a história de um filha da p*uta durão" e de conhecer mais sobre a obra e história do poeta americano Charles Bukowski. Então, se você ama gatos talvez também goste do poema Ode ao Gato de Pablo Neruda, veja!
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